20 January 2010

ATO LVI (Cai a chuva do céu cinzento...)

Cai chuva do céu cinzento. Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento. Tem chuva nele a escorrer.
(Fernando Pessoa)

O céu carrega um plúmbeo espaço de chuvas,uma cortina de aço se desprendendo por detrás dos prédios medianos, e que desenha na fina camada do vidro, gotículas fragmentadas morrendo suas composturas no frio retângulo. Tudo é cômodo nesse horário, e as paredes são sitiadas de saudades justificáveis, daquilo que eu nunca quero apreciar.

Tomo pílulas na intenção de desacelerar meu ritmo, um exercício queixoso e corriqueiro de ausentar minha lição de ser como sou, e copiosos poemas imemoriais que insistem em não sair da minha cabeça. Parece que estes, se transformam numa primitiva novela de escândalos, feito sexo adentrando meu corpo.

Mas nada de mim dorme, nada mesmo. Flutua sim; Em desnecessidades de tanta alegria, desligando minha pele na objetividade das amarguras do passado. Joga fora no lixo. Não existe beleza adivinhada e nem profundidade de corações, muito menos nas ações.

Existem apenas três cigarros desistidos no cinzeiro, e uma maçã pela metade, resistindo a minha próxima mordida.Meu coração não liquida seus honoráveis espaços. Fica por aí “excursionando” sensibilidades, um procura por vezes inútil, correndo saudosas leituras de beijos, de corpos e lugares a que um dia pertenci.

Ele vem como uma serenidade quase econômica, tentando se espalhar como notícia curiosa, inventiva, inversamente proporcional as melodias de meu viver. Fazendo-me tropeçar sobrevivente por paixões semanais, mensais, semestrais... Rendendo-me batalhas de gozos vendidos e amassados na cama!!

Os jornais não contam nada de novo, assinala mais propostas de omissão do que dicção, nos seus satélites de informações vazios. Francamente não saboreio os anos velhos, mas eles se cavam e se abrem desaparecidos e descobertos, e nos golpeiam; Com um azedume de ilusão e mistérios que... (...); A mente procura surpreender em manhãs distantes como essa.

Não tem nada de notações ou confissões, um passatempo de conto que se esvaziará mais tarde como as nuvens navegantes. Eu quero apenas dormir e não me decidir por nada; Não me decidir de nada apenas hoje. A diplomacia permissiva que espere minhas oito horas negociadas de sono.

Tento uma visão gratuita e uníssona, madura nesta compra continuada da carne, ser feliz, mas eu não assisti nenhuma aula, e meus estudos morrem comigo, leituras, filmes, bem aqui dentro de mim, momentos, pessoas, infinitos e sem respostas. Um balcão ordinário de palavras novas, em que a boca profere poucas letras vergonhosas, na bonita sustentação da chuva...

Me abraça...

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